sexta-feira, 26 de maio de 2017

Por Aline Silva - Blog Livros do Coração

Antes de iniciar a resenha, deixarei esse trechinho do livro para reflexão:

“A saudade enlouquece, embriaga, é um quebra-cabeça com peças faltantes e sua cura só é possível estando ao lado de quem a causa”. 

A princípio, esse trecho pode não parecer fazer sentido mas, até o final do livro te garanto que fará.

Em BECO DE ILUSÃO, conhecemos a história de Yidish, uma menina inteligente de 9 anos e super interessada em saber o que acontecia ao seu redor. Ela e sua família moram em Karnobat, localizada na Bulgária.

Um dia seus pais recebem a noticia que haviam recebido uma herança de um irmão que a tempos não viam. Esse patrimônio é uma gráfica, em Berlim. Essa mudança acaba por se tornar uma injeção de animo para família, menos para sua mãe, que estava infeliz em ter que voltar para Berlim. O que será houve para que ela não quisesse voltar?

“(…) – Sonhos e paixões quase me arruinaram. Pelo resto da minha vida, carregarei a vergonha do meu passado…-Então ela jogou água fria na nossa curiosidade. – Bem, isso não vem ao caso, estamos falando sobre você. Não diga uma palavra ao seu pai sobre o que conversamos aqui. Entendeu?(…)” 

Berlim emanava a energia de uma nova vida. A chegada de Yidish foi marcada pela imponência do Opernplatz, um palco de vários espetáculos, e um deles, o Ballet, encantou Yidish.

“(…) Berlim agora não era pra mim só uma cidade encantadora, mas havia se tornado a melhor cidade do mundo. Ela havia me apresentado o balé. (…)”

O retorno a Berlim foi impressionante. As pessoas se sentiam livres. Tudo entrando nos trilhos. Escola nova. Negócio novo para a família. Para Yidish o máximo era ir ao Opernplatz ver os ensaios do ballet. Com suas idas frequentes, ela acabou conhecendo Anton, que se tornou seu melhor amigo e sempre fazia companhia para ela enquanto andava pelo prédio.

Ela não se contentou a ver somente o ensaios. Ela queria ver uma apresentação diante do público pois sentia magia do lugar.

No aniversário de Anton, ela conhece Erdmann, primo e o melhor amigo de Anton, fazendo despertar nela um sentimento estranho que não sabia identificar. Então passaram a ser amigos também, mesmo se estranhando de vez em quando.

Yidish queria ver uma apresentação de qualquer forma e para tanto, os três começaram a planejar um meio para isso acontecer. Os espetáculos aconteciam a noite e crianças não podiam sair a noite sem estarem acompanhadas. Assim, eles teriam que planejar tudo muito bem para que não fosse pegos pelos pais ou por algum adulto.

“(…) Saímos sem ninguém notar e, quando já estávamos na rua, Erdmann pegou a bicicleta e corremos feitos loucos em direção à Opernplatz para assistirmos à apresentação de balé. (…)”

Será que o plano deu certo? Será que a mágica das bailarinas é realmente gigante no palco?

Torci muito que desse certo… Com o passar dos dias os amigos não se viram, pois o país estava entrando em colapso. Por quê?

Então voltamos há 80 anos atrás. A Alemanha encontrava-se em desespero pois a econômica estava turbulenta com a perda da Primeira Guerra Mundial para França. O povo, insatisfeito com a atuação do governo, acaba nomeando Hitler como Chanceler (Chefe de Estado). Em seguida, uma sucessão de golpes, atos ilegais e assassinatos instalou uma ditadura. O presidente morreu e Hitler assumiu o controle total. Os seus alvo era judeus, americanos, negros, homossexuais, pessoas com doenças físicas, com Síndrome de Down, e ainda, aqueles do partido comunista e a resistência jovem.

Nesse período Yidish não ía mais à escola. Ela e seus familiares ficavam em casa escutando as noticias através de um rádio. Todos estavam preocupados com o rumo que as coisas estavam tomando. Os pais de Yidish tiveram todas as economias consumidas pelo altos impostos e a gráfica havia sido vendida por um preço inferior, deixando a família sem recursos nenhum.

“(…) Roubaram-nos a liberdade de expressão, tornando-nos fantoches na mão do Estado. Não podíamos falar nem escrever aquilo que pensávamos. Não podíamos ter uma opinião, ou, pelo menos, ela não poderia se tornar pública, existindo apenas na nossa mente. (…)”

Então a Noite dos Cristais acontece e Yidish é brutalmente arrancada do seu mundinho. A partir daí sua única companhia eram as incertezas de um futuro. Sua vida muda, dando a ela a experiência mais horrenda que poderia imaginar. Sua casa é invadida por soldados nazistas e ela é levada para um ônibus onde não cabia mais ninguém, mas os soldados nem se importavam.

“(…) Olhava desesperada para todos os lados, procurando um rosto conhecido no meio da multidão de sombras assustadas que se confundiam. Minhas expectativas de encontrar minha família foram frustradas mais uma vez. (…) “

Seu pesadelo começou quando ela se viu em um campo de concentração. Seus sonhos sendo massacrados um a um por tanta hostilidades impostas pelos soldados, principalmente por Hitler. Yidish convivia diariamente com o medo, incertezas, e acabou fazendo que esses sentimentos se tornassem aliados para continuar seguindo em frente, sobrevivendo, um dia após o outro.

A todo tempo eu me perguntava: Será que ela conseguirá ter seu sonho realizado? Yidish não é mais Yidish. Essa nova realidade a transformou por ver que não iria se salvar diante de tantos sofrimentos, mortes das suas “colegas” de cela, frieza nos olhos dos soldados.

Contudo, ela decide que quer viver! Que não vai morrer! Um campo de concentração não é suficiente. Ela passa por mais dois. Ainda sim, essa suas transferências eram sempre facilitadas por um “anjo da guarda”, que a estava ajudando, sem ela saber.



“(…) À medida que os meses se transformaram em anos, a centelha da esperança que o meu salvador viria me resgatar foi diminuindo. Esperei pelo soldado que Hinish disse que me procuraria e torci para que ele fosse tão real quanto o castelo, e me levasse para bem longe. Isso não aconteceu. A centelha perdeu o brilho e deixou de existir. (…)”

A vida de Yidish, que já havia dado um giro de 360°, novamente passa por uma revolução. Ao chegar ao campo de Ravensbruck, é enviada para uma casa de prostituição comandada pela Sra. Butterfly. As mulheres que iam para lá eram selecionadas para satisfazer os soldados, tanto daquele campo, quanto dos outros próximos. Essas mulheres já não tinham esperanças ou familiares. A única coisa que restava àquelas mulheres era o que comer e um lugar para descansar seus corpos maltratados por soldados. Yidish, desesperada, vendo que não tinha mais jeito, pediu até que morresse pra não ter que passar por aquilo. O que seus pais pensariam dela?!

Yidish, nessa altura, já havia dito vários nomes. Chegou a se perder por assumir tantas identidades diferentes. O último nome que ela recebeu foi Sarah Wainness, que a fez renascer das cinzas e ter suas esperanças de dias melhores cada dia mais concretas.


Será que o “Anjo da Guarda” se apresentou à ela? O que será que aconteceu com a casa de prostituição? Ela teve a oportunidade de reencontrar seus familiares?

Narrado em primeira pessoa, BECO DA ILUSÃO é um drama histórico que se passa na Segunda Guerra Mundial. Os detalhes são ricos e o leitor consegue facilmente se ambientar nos momentos que Yidish, Dalina, Bertha, Nuria e Sarah, passaram.

A forma como autora conseguiu cativar, mesmo sendo um período nefasto e cruel, foi surpreendente. Sempre tivemos a impressão de Hitler ser exaltado por soldados, mas em Beco de Ilusão conseguimos ver que esses mesmos soldados eram contra algumas atitudes desse nazista, mas não podiam lutar contra.

Foi meu primeiro contato com a escrita da autora, apesar de já conhecê-la pessoalmente. Depois de ter lido esse livro, me pergunto: “Porque demorei tanto tempo pra ler?!”. Confesso que a capa sempre me causou estranheza, por não saber o que significava. Sim! julguei o livro pela capa e me arrependo. A capa faz todo o sentido agora!

Recomendo muito essa leitura! Eu sofri com Yidish. Eu chorei, sorri e depois me emocionei muito mais com o FINAL. Que final foi aquele? O livro é muito intenso e abala nossas estruturas.

A mensagem que esse livro passa é de não menosprezar o nosso próximo, achando que é descartável e não merecedor da vida. Não podemos julgar pela cor, raça, religião, opção sexual, e sermos condizentes com o preconceito e agressões. Somos todos iguais. TODOS temos direito de sermos felizes.

Eu li em versão impressa, mas possui em E-book também, na Amazon. A edição impressa é impecável, possui detalhes, desenhos, imagens da época e citações do Führer. No decorrer da história existem marcações de períodos. Ao final foi incluído no apêndice uma espécie de glossário explicando esses momentos. A diagramação está perfeita, a fonte está em tamanho confortável e a obra ainda tem as folhas amareladas. #Amei

BECO DA ILUSÃO foi o melhor livro que li nesse ano até o momento! E.M.O.C.I.O.N.A.N.T.E ♥♥♥♥♥






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